Anticítera
Necrotério d'Alma, de Cícero França, é uma obra marcante do simbolismo brasileiro, imersa em uma atmosfera profunda de melancolia e pessimismo. Lançado em 1905, o livro é composto por sonetos que exploram a inevitabilidade da morte, o vazio existencial, a desilusão com a vida e o sofrimento como parte indissociável da condição humana. França, que morreu precocemente aos 24 anos, deixou uma marca indelével na literatura com seus versos cheios de angústia, ecoando o legado de poetas como Charles Baudelaire e Cruz e Sousa. Os poemas de Necrotério d'Alma são intensos e cativantes, retratando a morte não apenas como um destino final, mas como uma sombra sempre presente que permeia a vida. O soneto que dá nome ao livro é particularmente impactante, sugerindo uma alma que, embora ainda viva, já está morta espiritualmente. A metáfora do necrotério é poderosa, evocando a ideia de uma decomposição da alma que precede a do corpo. O tédio, abordado no poema "Tédio", emerge como outro tema central, sendo descrito como uma força corrosiva que lentamente consome a existência, semelhante ao spleen de Baudelaire. Esse sentimento de desgaste e desencanto com o mundo aparece de forma intensa em diversos sonetos do livro. França se aproxima do que Augusto dos Anjos viria a fazer anos depois na maneira direta e brutal com que trata a morte e a decomposição, mas sua obra se distingue pela forma meticulosa com que utiliza o soneto para abordar temas sombrios. Sua linguagem é rica em imagens perturbadoras, mas ao mesmo tempo, mantém uma musicalidade que suaviza o peso do conteúdo.Necrotério d'Alma se revela como uma obra singular, oferecendo uma visão impactante e profunda da condição humana, enquanto dialoga com a tradição simbolista e outros grandes poetas que exploram os aspectos mais sombrios da existência.
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ENTRAI
Eis aí de minh'alma o necrotério aberto!
Entrai-o e vereis nele o que de horror existe...
Podeis entrar sem nojo e vos chegar bem perto,
Há um cadáver só o de minh'alma triste...
E não há podridão, nem há pus encoberto,
Pois um cadáver de alma a essas coisas resiste.
Entrai e sabereis, autopsiando-o, ao certo,
Em que a moléstia atroz, que a vitimou, consiste
Não vos assuste a entrada! É negra! Ide ao defunto...
E estudai com cuidado, em todo seu conjunto,
Esses despojos de alma. O coração rasgai,
E a doença que a matou tereis em todo curso
Com os males que sofreu pelo mundial percurso...
Ide sem susto adentro! Entrai sem medo!... Entrai!...
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Necrotério d'alma & outros poemas - Cícero França
16X23 cm
80 páginas
3ª edição
ISBN 9788569199373